Cart

a literatura: discurso de um persa a uma caravana europeia

por Lucas Haas Cordeiro

 

O tempo é um vaso mui delicado que carrega as flores da estação. Conhecer a história de tantas temporadas é uma exigência que se impõe ao narrador que deseja apaziguar em si a sede da verdade. Pois existe um mistério por debaixo das pegadas, por sobre elas, por todos os lados onde a terra, remexida, cedeu ao peso do corpo da história. O futuro, por sua vez, não passa de uma carga de obviedades. É preciso esgotar a subjetividade para alçar voos – profetizar é uma atividade cotidiana de corte; o futuro dispensa análise e costura.

Para onde olhar? O tempo das pegadas é insensato – onde começa a história do homem? Onde tem início a verdade terá início a existência de Deus. Pois que a divindade é um conceito prosaico; escorre das mãos como a água dos rios que desce a montanha; lambuza o corpo como o mel que os bosques recebem dos seres alados da terra; Deus é a resposta a tudo que o Verbo consegue enunciar. Onde há enlevo, haverá calor: terra e fogo. As águas da alma são, assim, o bálsamo do homem: o amor arrefece o espírito como um elixir fantástico. E, no entanto, será necessário mais carne que a do homem para franquear as portas do tempo – a ampulheta é matéria moral: todo falar-se ultrapassa a carne, porque supera as artimanhas do tecido, do ventre e da voz.

E assim, o mirante da vida nos percebe de fora da existência em si. Profetizar é não se deixar vencer pelas amarras do vazio humano. Para ser um narrador de seu tempo, é preciso superar as barreiras da contemporaneidade. Muito além do homem, o poeta entrevê as possibilidades ainda não realizáveis de sua manufatura; além-do-homem, como além-do-espaço, reside o viajante; ele encontra, como lhe seja característico, uma dimensão típica; uma voz de esplendor reconhece na historiografia a última realização do espírito.

 

*Lucas Haas Cordeiro. Nasci em 1989. Sou o mais novo de quatro filhos. Escrevo desde sempre, brotando-se disso, Desde 2006, dois livros de poesia e dois romances. Pavão de seis cores, romance de 2017, dialoga sobre a violência, e fundamenta os trabalhos que hoje desenvolvo: pesquisa sobre a consciência, em seis séculos, de 1599 até hoje, modulando vozes variadas, próprias de cada tempo. Dos tempos antigos, a ideia de que a arte da escrita é uma espécie de profetização: eis um princípio bem definido pela milenar tradição islâmica, e consciência bem estabelecida desde muitas de nossas origens.

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