Cart

Para fracassar uma vez mais, quatro notas de leitura

por Guilherme Conde Moura

 

1.
Ao retornar à questão, proposta por Hölderlin, “para que poetas ainda?”, Christian Prigent, em ensaio de 1996, elabora uma disposição da poesia relacionada àquilo que compreende por modernidade em literatura e arte, i. e., uma força atuante no tecido do presente que “corrói a certeza dos saberes de época, desfaz o conforto formal e propõe menos um sentido do que uma inquietação sobre as próprias condições de produção de um sentido comumente partilhável”. Nesse cenário, a tarefa da poesia moderna seria a de movimentar suas forças contra certezas estabelecidas, clarezas convencionadas e promessas cegas de sentido.

Se pensarmos com Antonin Artaud – que é constantemente evocado também por Prigent –, para quem “ideias claras são ideias mortas e acabadas”, essa tarefa moderna da poesia, enquanto luta contra a certeza e a clareza, se aflora como luta pela vida, pela propagação da vida, como um jorro de força ou um último suspiro. É nesse espaço, inclusive, que parece girar sua ideia de crueldade, como uma submissão da vida a sua própria necessidade constante de propagação.

Justapondo Prigent e Artaud podemos ensaiar uma resposta a uma recolocação anacrônica do questionamento de Hölderlin. Para que poetas ainda? Para que reste ainda alguma vida, no meio das redes que insistem em encarcerar e estabelecer ideias cada vez mais mortas e acabadas. Não para salvar toda humanidade, jamais, essa é pretensão demasiada ingênua, mas para fazer algum esforço, nem que seja apenas para prolongar aquele suspiro final.

 

2.
Se há um esforço da poesia para criar uma zona de ilegibilidade, onde os sentidos estabelecidos são colocados em questão junto com seus mecanismos de produção e propagação, a poesia reside na falha da comunicação e da legibilidade, em um terrível e cruel mal-entendido. Em um impasse, uma indecisão. Um movimento que seja derrota e vitória. Como em um curto poema de Emily Dickinson:

“We lose—because we win—
Gamblers—recollecting which
Toss their dice again!”

Uma poesia clara, representaria vitória da comunicação e uma perda da força poética que reside em seu próprio fracasso em atingir o sentido. O paradoxo do primeiro verso carrega, então, uma indicação de tarefa da poesia. É necessário fazer-se ilegível, criar um inconciliável que sirva como base do desafio poético. A aposta de toda poesia é uma aposta no indecifrável.

A cada vislumbre de clareza, lançam-se novamente os dados no horizonte, para que em uma pausa, em um repouso, se crie uma nova incerteza, um novo paradoxo desafiador. A aposta deve ser repetida incessantemente – enquanto há vida, ela insiste em se prolongar – un coup de dés não basta. Nem mesmo se feito do fundo do naufrágio do sentido, porque sempre uma tábua de certeza emerge das águas para que os mais desesperados se agarrem a ela. Assim, sempre é necessário mais um coup, mais um golpe, mais um lance, para que essa tábua se quebre, como em outro fragmento de Dickinson:

“And then a Plank in Reason, broke,
And I dropped down, and down—
And hit a World, at every plunge,
And Finished knowing—then—”

Cada aposta abre, com a violência de uma queda escada a baixo, novas possibilidades de mundo, de vida, conforme quebra aquelas imagens que nos são apresentadas como as únicas possíveis. Nesse tombo, em um esgarçamento do sentido, uma abertura radical emerge: “—then—”, uma palavra que antecede todo por-vir, em um arrombamento, marcada pelos travessões.

Contra o saber das coisas estabelecidas, prontas e imutáveis, a poesia propõe o pensamento como criação, como possibilidade de ativamente gerar mundos outros, novas formas de vida.

 

3.
A poesia de Emily Dickinson caminha numa constante elaboração de planos de possibilidade, que, ao mesmo tempo que é habitável e presente, é aberto, latente e por-vir, um indeterminado Isso (—This—):

I dwell in Possibility—
A fairer House than Prose—
More numerous of Windows—
Superior—for Doors—
Of Chambers as the Cedars—
Impregnable of eye—
And for an everlasting Roof
The Gambrels of the Sky—
Of Visitors—the fairest—
For Occupation—This—
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise—

Esses planos de possibilidade se desdobram conforme são lançados os dados, em um processo radical e difícil, marcado por quebras, interrupções, desconfortos, atritos. Trata-se de criar uma pesada língua estrangeira, contra a língua nacional ou a globalizada, capaz de fazer as certezas desmoronarem e os navios do conforto naufragarem com o peso de cada palavra em sua forma de matéria criadora:

“Could mortal lip divine
        The undeveloped Freight
Of a delivered syllable
        ’T would crumble with the weight.”

 

4.
Uma abertura tão violenta onde Isso (—This—), então (—then—), só pode ser habitado por uma negação, ou melhor: uma repetição da negação/afirmação de Ulysses (“Eu sou ninguém”):

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise — you know!
How dreary — to be — Somebody!
How public—like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!

Não se trata de uma obliteração da subjetividade, mas de um protocolo para uma outra subjetividade, uma subjetividade criadora, onde o ninguém (nobody) se configura como um nãocorpo (no-body) que atende a uma demanda de Artaud, sendo menos a ausência de corpo do que uma negação do corpo estabelecido, catalogado. Na poesia habita o Corpo-sem-Órgãos.

P.S.: Todos os fragmentos e poemas citados possuem diferentes traduções para o português, como pensei acerca dos poemas em inglês e não refleti demoradamente sobre as traduções, preferi não eleger nenhuma, por isso utilizo os textos no original.

 

** Guilherme Conde Moura tem 22 anos, é cariocapixaba e colecionador de bonecas. É pesquisador e multiartista, escreve sobre literatura, artes, esportes e histórias em quadrinho. Publicou Caderno de Segunda Mãe (Coletivo Garupa, 2015) e mas passo esta matéria perigosa (la bodeguita, 2016).

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