Cart

Sinuca

por Isadora Lopes

Um alarme soou em minha cabeça. Teria vindo do cérebro ou do coração? Não tinha certeza. Só sabia que já estava na frente da TV há umas quatro horas. Quando o assunto era matar o tempo, eu me considerava uma profissional. Porém, era incapaz de dizer se a culpa que eu sentia era genuína, racional, emocional ou apenas mais um de tantos reflexos da angústia pós- moderna experimentada por minha geração todo santo dia ao abrir uma rede social e dar de cara com fotos de amigos mais bonitos, mais saudáveis, mais felizes.

Com um pouco de dificuldade, criei coragem e fui enfrentar o ritual do dia a dia. Apesar de odiar rotinas, não conseguia me livrar delas. Tomar banho, secar o cabelo, escolher uma roupa, passar ou não maquiagem. Não.

Sob o olhar de reprovação dos meus pais, que já começavam a emitir sinais não tão sutis de que minha presença inerte os incomodava, peguei minha bolsa e fui encontrar alguns amigos no bar. Cada vez que entrava no carro da minha mãe, assumindo a função de motorista, me sentia atormentada pela luzinha acessa do combustível que parecia estar ali exclusivamente para me lembrar da falta de dinheiro e, pior, da preguiça de procurar um emprego.

Ignorei aquela sensação colocando para tocar um CD de alguma bandinha emo que eu gostava na adolescência, quando havia morado naquela mesma casa, mas com meus avós, já que meus pais arriscaram mudar para outro estado. Naquela época, achei que não estava pronta para deixar meus amigos do colégio e decidi incorporar a garota rebelde, pintando o cabelo de vermelho e me recusando a acompanhá-los.

Será que aquilo, de alguma forma, teria influenciado na construção daquela pessoa que agora eu encarava no espelho do parabrisa? Será que era por isso que eu tinha dificuldade em seguir ordens, vindas dos meus pais ou de quem quer que fosse? Me esforcei para fazer com que essas perguntas sumissem. Enquanto isso, no rádio, a banda berrava o mesmo discurso de dez anos atrás. E tive a impressão de que eu também.

Cheguei no bar, acendi um cigarro e fui ao encontro dos meus amigos. Algumas cervejas depois, resolvemos jogar sinuca. Lembrei que havia praticado bastante durante a faculdade, indo com um namorado de boteco em boteco, à procura da mesa menos decaída possível. Não pude deixar de concluir que a sinuca, a faculdade e o namorado, agora integravam o nem um pouco seleto hall de “coisas das quais eu havia desistido durante minha vida”.

Escolhi um taco e, em poucas jogadas, já pensava que não tinha perdido tanto a prática assim. Mais algumas tacadas e copos de cerveja e eu já estava certa de que existia dentro de mim um talento nato acabando de acordar. Até que sobrou apenas uma bola. Do outro lado da mesa. Quando tentamos, em vão, encontrar um sentido na vida, qualquer detalhe como aquela bola, assume proporções gigantescas perante nosso vazio existencial.

Dessa forma, percebi que aquilo tudo não passava de uma metáfora da minha própria vida. Até o momento, tive muita sorte no jogo, enquanto não

podia dizer o mesmo sobre o amor. Mas tudo bem, pois quem eu achava que era para desafiar uma das mais tradicionais leis da natureza?

Meus amigos aguardavam o desfecho do que, para eles, era apenas mais uma partida de sinuca. Enquanto isso, meu coração acelerava e minhas mãos suavam frio. Eu não estava diante do que as pessoas chamam de “snookar” alguém. Nenhuma bola adversária estava em meu caminho. Não havia nenhum obstáculo concreto a superar. Somente o meu medo frente aquilo que eu considerava ser a exata reprodução da toda a minha trajetória até então.

Optei, como fazia com frequência, por agir inconsequentemente. Daria a última tacada sem pensar. Quem sabe até não fecharia os olhos. E foi o que eu fiz. Assim, não me espantei quando a bola branca passou muito perto da bola alvo sem, entretanto, encostar nela e voltando para o mesmo lugar de onde havia saído.

Nesse momento, meus amigos já percebiam que eu dava algum outro tipo de importância àquela tacada e começaram a me incentivar para que tentasse mais uma vez. Eu sabia que já tinha comprovado o que na verdade nem precisava de comprovação. Mas aceitei, só de brincadeira, para quem sabe sentir o gosto de como seria a metáfora da minha vida se tivesse um desfecho positivo. Mirei na bola do outro lado da mesa e dei mais uma tacada. Aparentemente, sem pressões dessa vez.

A história se repetiu. A bola branca passando novamente muito perto do alvo e retornando em minha direção. Inconformados, meus amigos me falaram para tentar de novo, sem nervosismo.

Pode parecer mais um desses clichês, mas juro que naquele momento, saía uma canção do som do bar que me acompanhava por grande parte da minha vida e a qual eu havia atribuído diferentes significados até então. À medida que David Bowie cantava Under Pressure, o tom dramático da situação criada em minha cabeça aumentava.

Olhei para a mesa verde e respirei fundo. Minhas mãos suavam cada vez mais. Tacada, bola branca passando ao lado da bola alvo e voltando em câmera lenta, como se debochasse da minha persistência. Devolvi o taco pro lugar de onde havia tirado. Sorri. Enchi o copo de cerveja e fui fumar outro cigarro do lado de fora do bar. Já mal se ouvia o estalar de dedos ao final da canção-hino-dos-exaustos. Meus amigos me acompanharam, rindo e dando recomendações para uma próxima partida.

Fingiam desconhecer, talvez por compaixão, o fato de que para mim aquilo não tinha sido apenas mais um jogo de sinuca. Que os conselhos, aparentemente relativos à partida, já haviam sido proferidos milhares de vezes pelas mais diversas bocas, em várias fases da minha vida.

Pensando em não estragar aquela noite, mantive meu sorriso, cada vez com menos dificuldade. Decidi que nunca mais seria enganada por minha sorte no jogo. Assim como na sinuca, eu continuaria a ser uma amadora pro resto da

vida. E isso já não soava tão ruim quanto à bandinha emo da minha adolescência.

*Isadora Carvalho tem 31 anos, estudou Direito em Maringá, um pouco de Letras em São Paulo e joga sinuca há dois anos em Curitiba.

*foto de Pen Tsai, retirada de: https://unsplash.com/photos/yUpn_S_x5BU

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