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Um caraça coçava as costas da minha literatura no baile

por Paulo Ribeiro

 

A literatura, graças à Netflix e às várias opções de internet de hoje, muito mais cômodas e diretas, já não tem história pra contar. Deu. Acabou. Chamem o árbitro de vídeo se a escrita soar informativa na ficção. Os meios eletrônicos fazem isso mais fácil e melhor.

Daí minha convicção: a linguagem deve ser a própria trama, ser o enredo a desfiar. Eu creio no estilo dando sentido à literatura. E é disso que trata “Cozinha Gorda”, uma de minhas novelas (entre as sirenes escrita, no leito de coma de minha mãe no hospital) se passa inteira numa cozinha de hotel de Bom Jesus, local onde minha mãe ganhou a nossa vida como lavadeira de pratos.

Usar um único recinto para contar a história a partir do olhar de um menino, preso em uma jaulinha debaixo da mesa da cozinha, foi a forma que encontrei para narrar a já tão desgastada relação mãe e filho.

Literatura de Invenção eu chamaria tal estratégia.

Mas, como assim, que história é esta de Literatura de Invenção?? Literatura de Invenção! Tem alguma que não é?

Sinto desapontar, mas a redundância é apenas aparente. Há algo mais aí.

Donaldo Schuler, na Introdução do Volume I do quase ilegível “Finnegans Wake”, o mais radical mergulho na expressão jamais tentado, escreveu:

“Nem sobre enredo nem sobre processos verbais se profira sentença de experimentalismo gratuito. Joyce avança com expressividade reinventada. Invenções só falam a receptores inventivos”.

Eis a chave da leitura. É mais ou menos isso: (re)invenção, inventar em cima da invenção. Além da originalidade do enredo, da força da imaginação, as formas e os suportes devem estar à mão do sujeito. E seja que diabos seja, cinema, teatro, música, dança, fotografia ou ilustração, tudo isto bem conjugado com a palavra dá uma cria melhor.

Reinvenção com receptores inventivos. E há sobre este, digamos, “gênero” uma trajetória de autores bastante consistentes, que traço um panorama rápido, para se ter uma ideia geral.

Na Literatura Brasileira, Machado botou um morto a narrar sua vida e isto é uma senhora (re)invenção de narrador, e que fica à altura de sua excelência narrativa.

Lá fora, além do “Finnegans Wake” (o livro que é um sonho inteiro, o doido do James Joyce foi tão fundo na pesquisa com a palavra que inventou até a voz do trovão. Um rronnnkonnbronntonnerronntuon de preencher duas linhas ou mais), “Ulisses” refaz (ainda sob um enredo comum: 24 horas de um sujeito em Dublin) a forma narrativa de nosso tempo com a introdução do monólogo interior e a criação de “palavras-valises”, palavras jamais escritas e que trazem uma terceira dimensão ao que se lê.

Joyce paira como um fantasma sobre a literatura moderna desde que escreveu “Ulisses” em 1922.

Mas, fantasmas por fantasmas, a novela mais esquisita que li foi “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, que faz de uma cidadezinha o maior labirinto literário que topei.
José Rubem Fonseca, em “Lúcia McCartney”, tem uma segunda novela embutida na primeira, inteirinha nos rodapés.

O tema da reinvenção é bom, vocês estão vendo. Já leram “A Vida Modo de Usar”, de um certo francês chamado Georges Perec? O enredo? Bem, se trata da história de um pintor que passa o serrote em todas as suas telas e espalha os pedaços pelo mundo e depois gasta o resto de sua vida a recriar os quadros. Uma reconstrução à moda dos jogos de puzzles, estes quebra-cabeças que, mais do que as crianças, sei de adultos que veneram o troço.

O Erico Veríssimo, num de seus últimos livros, “Incidente em Antares”, que é o que eu mais gosto, bota uma procissão de mortos a tomar a cidade com discursos contundentes relacionados à moral, à ética, ao sexo, ao escambau!

Glauber Rocha viajou de vez no seu “Riverão Sussuarana”, uma galharia seca e literária tentando reproduzir a fala do Nordeste a partir de uma escrita caótica. O resultado também é… caótico.

GR seguia a trilha de um outro GR, Guimarães Rosa, esse sim, o mais inventivo entre nós, que no seu “Grande sertão: veredas” faz a reflexão sobre o mal e o bem, o diabo e deus, vida e a morte, a partir de um romance nunca resolvido entre Riobaldo e Diadorim, porque Diadorim até o final do livro veste e age como jagunço. Pura poesia é o que derrama das páginas deste “Grande sertão: veredas”. Leiam com urgência!

Nas “Galáxias”, de Haroldo de Campos, o soar e o tom das palavras é o que acontece naquela prosa-poética-porosa de um dos inventores da chamada POESIA CONCRETA.

E o que dizer do “Catatau” do Leminski, que põe o filósofo René Descartes em plena Holanda Pernambucana, a reinvenção do discurso quando eles, holandeses, estiveram de dono aqui.

Pulei o Mario de Andrade, e o seu herói sem nenhum caráter, “Macunaíma”. Safadão e preguiçoso.

E o “Púcaro Búlgaro”, de Campos de Carvalho. Ali há a subversão total do enredo, com um surrealismo engano-bobo a fazer literatura supra-realista. O vazio humano posto em equivalência a se descobrir se há, afinal, Bulgária. E, havendo Bulgária, existiria um púcaro búlgaro (esta espécie de pequeno copo que usamos para tirar água das jarras)? Sátira e um humor corrosivo tocado por uma escrita fluente.

E o romance experimental escrito pelo Loyola Brandão. Acredite! “Zero” é um romance-colagem, no qual um José e uma Rosa vão denunciar, de forma reinventada, o período da ditadura no país. É a expressão de recortes de jornais e de todas as formas de escrita, em suportes como o outdoor, ou as paredes de um banheiro de rodoviária.

E “Trapo”, do curitibano (nasceu em Lages, vá lá!), Cristovão Tezza, já ouviu? Reza a lenda que o livro é sobre o Paulo Leminski. A novela traz a trajetória pós-mortem de um poeta cheio de recursos e pouco domínio sobre a língua, que deixa dois calhamaços de escritos, que são entregues a um professor de Português aposentado. A leitura dos textos transtornam a pacata vida do sujeito, que passa a (re)circular por uma Curitiba que atualiza a de Dalton Trevisan.

Esta é a minha turma. Tem sido dentro desta perspectiva a minha trajetória como criador. “Glaucha”, meu primeiro livro, é uma entrada de cabeça ao que já se denominou Pós-Modernidade, com um intercâmbio entre gêneros e formas, que utiliza desde o cinema (Glaucha vem de Glauber Rocha, o cineasta que baixa em espírito na minha prostituta protagonista). A dança, o teatro, a linguística e, sobretudo, a própria literatura, usada em intertextualidade a partir de um movimento chamado Zecalencarista, de valorização da língua.

Já há neste livro (escrito em 1989!!) uma troca de e-mails entre Samantha e Glaucha, que protagonizam um casal na história. Mas, por trás do “experimentalismo” que marca este romance, há um tímido “voltar à terra” que marcaria a minha futura criação. É o que José Clemente Pozenato apontou na apresentação do meu livro de crônicas “Quando cai a neve no Brasil” (2004): Foi para isso que Paulo Ribeiro se pôs a escrever. Para falar de gente escondida no mapa do Brasil, para que todos saibam deles. “E para que fale dessa gente do jeito que fala essa gente, sem problema nenhum”.

E esta trajetória de novelas (termo pouco usado no Brasil, mas corrente nos EUA) começa com “Vitrola dos Ausentes”, que é a história de um êxodo. Depois do corte dos pinheiros da região Nordeste do Rio Grande do Sul, a “vitrola” em pauta é um dos utensílios daquelas famílias em migração. Novela de passagem, cada faixa do vinil que roda na vitrola corresponde a uma fala ou episódio da vida daquela gente sem mais horizontes.

E todos os livros que se seguiram prezam a “re”invenção da invenção natural ao texto ficcional. Além da forma (velho termo!) e, talvez melhor dizendo, dos suportes internos que estruturam as obras, sobretudo, todos os meus textos valorizam a pesquisa com a palavra. Seja quando os personagens falam como falam na vida real (em “Vitrola” e “Cozinha Gorda”), seja quando há mesmo a radicalidade dos contos “sem um fim possível”, como em vários de “Valsa”, e da dicotomia verdade-mentira de “Chegaram os Americanos”.

E chegamos ao O TAL EROS SÓ – OSSO RELATO, o próprio título já indica, é um livro palíndromo, que foi escrito de cima para baixo na página, da direita para a esquerda, sendo que o conteúdo pode então ser lido nas duas formas (de cima para baixo e de baixo para cima) e continua o mesmo.

Foi o meu mergulho sem rede, o meu mergulho mais profundo na experimentação.

E, aí, voltei à terra mais uma vez, e publiquei um segundo livro de Crônicas, sobre a cultura local e os tipos humanos de Bom Jesus.  “Bonja” são 100 crônicas, meu presente ao Centenário de Bom Jesus, em 2013. Era a hora de parar com tal temática. Tatuagem que eu não pedira na minha testa escrita: “Bom Jesus”

E, finalmente, achei minha cidade ficcional. Chama-se Oaio do Sul. É a migração de uma leva de americanos do estado de Ohio que vem para uma cidadezinha do Sul do Brasil. Agricultores, pequenos pecuaristas, empresários semifalidos que vêm a sorte tentar. A primeira vez que a cidade aparece em minha ficção é no livro de contos ‘O Transgressor’ (2017), publicado pela Kotter. Em seguida, em “Um Cara Coçava as Costas de Minha Mãe no Baile’, um livro-música, ela passa pela transição entre as duas culturas antagônicas: os nativos daqui e os americanos chegando para se apossar.

Criava-se o que chamei de ‘Ciclo de Oaio’, uma coleção com seis livros que trará a cultura, a tradição, o mito, o herói, o conflito, aquela gente tão singular. O primeiro volume da coleção se intitula ‘Olhos Castrados’, cujo protagonista é um pintor que dará as primeiras tintas daquele mundo que criei.

 

*OLHOS CASTRADOS será publicado em setembro pela Kotter Editorial.

*Paulo Ribeiro é formado em Jornalismo e tem mestrado e doutorado na área de Letras. Ex-professor da Universidade de Caxias do Sul, sua produção literária alcança o 20º livro, entre eles, ‘Vitrola dos Ausentes’, considerado de relevância em estudos universitários. Pela Kotter editará a partir de agora a coleção ‘Ciclo de Oaio’, da qual ‘Olhos Castrados’ é o primeiro volume num total de seis obras.

 

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