Cart

Um homem de quarenta 

por Vitor Miranda

 

Um homem de quarenta entrou em meio a roda pedindo algum trocado. “É preciso ter coragem pra pedir. Os covardes roubam.” Dizia ele. O homem de quarenta que chamarei aqui de José entrou na roda de poetas com a maior coragem do mundo naquela esquina da Vila Mariana. Alguns lhe ofertaram uns trocados, outros nem tanto. Afinal de contas, eram todos poetas reunidos para um sarau. Enquanto José recolhia as moedas doadas alguém lhe perguntou. 

-Você faz poesia? 

José em tamanho espanto deixou sua mochila de lado, onde depositava suas moedas, e num questionamento interior se expressou exteriormente. 

-Como você sabe que eu faço poesia?
-Nos diga uma, por favor? 

Então José começou a festa e nos disse três belíssimos poemas em sequência. Disse sorrindo, feliz. Por alguns instantes pareceu se esquecer das moedas. A única coisa que lhe importava era a poesia. Algo que pouco importa nesse mundo, como José mesmo confessou ao ser convidado a ler poesia no sarau que reunia os poetas naquela esquina em frente ao Quinto Pecado Café & Bistrot. 

-Parei de escrever poesia lá pelos meus vinte e poucos anos. Hoje estou com quarenta, sou casado, tenho três filhos pra criar. Agradeço o convite, mas preciso ir atrás de dinheiro. Tenho que comprar leite, arroz, feijão. Ninguém quer saber de poesia nesse país. 

Ao falar das preocupações da vida, José esquecia sua poesia, esquecia sua alegria e voltava aos problemas do dia a dia. Se despediu de nós de maneira séria e saiu caminhando como quem caminha de volta para casa de mãos vazias. Em breve instante hesitou e voltou com um grande sorriso. 

-Ei! Como você sabe que eu escrevo poesia?
-Poetas reconhecem poetas, meu caro. 

José virou sorrindo e foi-se embora como quem caminha atrás da poesia. Se a utopia serve para caminharmos, como diria Eduardo Galeano. A poesia serve para caminharmos em estado de felicidade chutando poças d’água feito Gene Kelly em Cantando na Chuva. A poesia serve para caminharmos cantando atrás do Bloco do Amor, atrás da folia, atrás da foliã. A poesia serve para continuarmos acreditando na utopia que há no horizonte. 

 

*Vitor Miranda é leonino egocêntrico poeta boêmio. Tem 28 anos e ainda não se formou em nada. Paulistano de nascença e de vivência, Procopense de amor, curitibano de poesia. Autor dos livros Num mar de solidão.  Poemas de amor deixados na portaria e A gente não quer voltar pra casa e é também o poeta letrista fundador da Banda da Portaria.

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